Entrevista Exclusiva Com Gérson Werlang


ProgshineGérson, antes de falarmos um pouco sobre o seu primeiro disco solo, Memórias Do Tempo (2008), eu gostaria que você nos contasse um pouco sobre a Poços & Nuvens e como andam os trabalhos do mesmo.

Gérson Werlang – A Poços & Nuvens está retornando às atividades, e devemos tocar ainda este ano, num festival de rock progressivo realizado aqui no sul, chamado Manifesto Progressivo de Rock. Vai ser a quinta edição do festival. Nós paramos por um tempo devido a outros projetos de membros da banda, como o meu disco, por exemplo. Também ficamos aguardando a realização do nosso dvd, Clouds On The Road, que finalmente entrou em fase de produção.

Progshine – ‘Memórias Do Tempo’ a canção, assim como o disco ao todo me soa bastante ‘lar’, ‘casa’. Isso se dá pelo fato de você ter focado o tema central do trabalho nas suas memórias de infância e de vida?

Gérson Werlang – As primeiras composições de Memórias Do Tempo (2008) apareceram logo depois do fim das gravações de Província Universo, da Poços. Foi uma continuação natural das temáticas de Província, mas sob uma perspectiva mais pessoal. Então temáticas como a casa, e as memórias da infância vieram com muita força. Para mim, estar perto de casa, dos amigos, da família e da natureza são as imagens mais poderosas da felicidade.

Progshine – O uso do computador juntos dos arranjos ‘orgânicos’ se faz notar no disco. Você acha que isso acontece naturalmente num trabalho solo hoje em dia com a facilidade que temos em se tratando de tecnologia?

Gérson Werlang – Eu queria unir esses elementos acústicos e elétricos com programações, para que tudo se mesclasse num todo coerente e as pessoas pudessem ver que o que faz uma obra é a forma como se utilizam os elementos a favor dela, e não os elementos em si. Ao mesmo tempo não dispenso o lado artesanal, de tocar os instrumentos, de compor . Nesse sentido, o disco é bem contemporâneo, é um retrato de nossa época, tem um lado artesanal mas também tem um lado eletrônico.

Progshine – Me pareceu que o disco levou certo tempo para ficar pronto. Conte-nos um pouco sobre o processo de composição e gravação.

Gérson Werlang – Foi um processo muito longo, levou anos. Muitas coisas aconteceram durante o processo de gravação. Perdi pessoas queridas, no terreno familiar. No campo da produção do disco mesmo houve muitos percalços. Quando estava gravando ‘Rosa Mística’, que é uma música muito grande, cheia de detalhes, tive a impressão que nunca veria esse disco pronto.

Progshine – E por falar em composições, a minha música favorita do álbum é justamente ‘Rosa Mística’. Acho que é a mais ‘progressiva’ do disco, poderia falar um pouco sobre ela?

Gérson Werlang – ‘Rosa Mística’ foi feita para minha mãe, que faleceu em 2002. Naquelas semanas que sucederam a morte dela, comecei a compor ‘Rosa Mística’, de forma bem intuitiva e espontânea, ela foi saindo naturalmente. Estávamos no meio dos ensaios para gravar o disco, e eu lembro de ir passando as partes para a banda, dando direcionamentos, etc.

Progshine – Você acha que o seu trabalho solo com Memórias Do Tempo (2008) é de Rock Progressivo ou esse é somente uma das muitas influências?

Gérson Werlang – Para mim, o rock progressivo é muito mais do que o que é normalmente tido como rock progressivo. Então, imitar Genesis, Yes ou Pink Floyd não é suficiente para se fazer um bom disco progressivo, é preciso estar em movimento, adicionar novos elementos. É isso que faz uma obra ser viva. Por isso eu procuro não limitar o tipo de influência, tudo pode servir, desde que ajude a expressar aquilo que eu quero. Para mim o todo do álbum é progressivo, com muitas influências vindas dos mais variados lugares.

Progshine – Como andam as críticas sobre o álbum e como o público tem recebido o disco? Você nota os fãs do Poços & Nuvens te acompanhando também?

Gérson Werlang – As críticas têm sido muito positivas, estou muito feliz com isso. E os fãs da Poços têm seguido de perto o trabalho. Acho que meu trabalho solo e a Poços são coisas que estão muito ligadas, é difícil separar.

Progshine – Normalmente o artista do sul tem uma certa dificuldade em ‘subir’ o país. Você também concorda com isso?

Gérson Werlang – Concordo. Mas temos ido ao Rio de Janeiro com certa freqüência, já São Paulo nunca fomos. Acho que depende muito de contatos que a banda tenha. Às vezes uma pessoa com vontade de levar a banda e encontrar lugares para que ela toque já muda todo o quadro.

Progshine – Seria essa uma questão pura e simples de região?

Gérson Werlang – Acho que não. Já fomos para o exterior com mais facilidade do que iríamos para certas partes do Brasil. Há uma falta muito grande de agentes, de pessoas envolvidas com produção no Brasil. E isso é engraçado, já que há falta de empregos, mas ninguém ocupa as vagas da enorme carência de profissionais na área de produção que existem no país.

Progshine – Dois fatos chamam bastante atenção no disco. O vocal de Déborah Rosa e a maravilhosa arte para o encarte do disco de Gustavo Sazes. Foram escolhas fáceis pra você?

Gérson Werlang – O Gustavo foi uma escolha natural depois da capa que ele fez para o nosso dvd. Pensei que seria ele a pessoa ideal para elaborar a capa do cd. Mesmo assim o Gustavo trabalhou bastante, conversamos muito antes de chegarmos ao resultado final da capa.
Já a Deborah é minha amiga, uma cantora conhecida aqui no sul, e ela se encaixou perfeitamente no espírito do disco. Ela é muito versátil, vai desde o blues até a mpb, e adorou gravar algo relacionado ao progressivo. Ela tem sido uma constante nos shows que venho fazendo, desde antes do lançamento do disco.

Progshine – Agradeço imensamente o apoio ao Progshine e gostaria de deixar o espaço final livre, fique a vontade.

Gérson Werlang – Eu é que agradeço o espaço e convido todos a comparecerem aos shows de divulgação do disco que devem vir por aí. Um grande abraço a todos.

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2 comments to Entrevista Exclusiva Com Gérson Werlang

  1. alex avolio disse:

    Ainda não tive o prazer de ouvir este trabalho. Tenho os dois do Poços e torço muito pela volta da banda e quem sabe um showzinho aqui no Rio! Alem de Dvd, claro. Abraço e sucesso!

  2. Cesar Augusto Tomelin - cato disse:

    É incrível como o Rio Grande do Sul consegue ser um verdadeiro manancial de talentos e virtuoses e que em um país enorme como o Brasil tenho que o comparar a Inglaterra dentro da Grâ-Bretanha e em todo o Reino Unido. Entre tantos talentos que surgem e vem se renovando nos, amantes da melhor expressão da música
    estamos diante de mais um baluarte do Rock Progressivo. Um mestre por excelência, Gérson Werlang que diante de toda a sua primazia e destreza nos contempla com este seu disco solo, Memórias Do Tempo.
    Para mim que cresci amando o Rock Progressivo desde suas origens, quando o mesmo tinha uma força que vinha das entranhas da alma dos que elaboravam solos mirabolantes a ideia de aliar computadores ao que esta contido no âmago dos instrumentos bem como a infinitude da criatividade musical humana e espiritual , parece querer sobrepujar o que essa capacidade nata pode produzir porém, entendo a preocupação de Gérson quando procura aliar composições ‘computadorizadas’ ao que melhor emana de si uma vez que são novos tempos e navegar é preciso. Desejo que estas “Memórias do Tempo” se prolonguem de forma atemporal como as sonoridades maravilhosas que levam consigo e parabenizo mais uma vez o grande amigo Progshine por mais esta bela homenagem ao nosso valoroso Rock Progressivo.

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