
Leo Santana: Então, Paulo, 30 anos de estrada, dois álbuns históricos, um DVD gravado no Theatro José de Alencar… como é que você analisa essa saga?
Paulo Rossglow: Estou viajando mais no que vai ser daqui pra frente do que na minha saga até aqui. Estou compondo muito e estamos com novos projetos. Mas confesso que minha saga foi bem interessante… não foi uma saga ruim, não, não tenho nada do que me queixar… Tive meus bacanais (risos). Mas quero dizer que, quando partir dessa pra terra dos pés juntos, morrerei feliz e com a sensação de que deixei plantada alguma coisa. Tenho certeza de que daqui há 100 anos um pesquisador vai pegar o CD do Trem Do Futuro e vai se inspirar pra fazer a arte dele.
Leo Santana: Atualmente, como você vê o Paulo Rossglow no contexto da música cearense?
Paulo Rossglow: Hoje, eu sou um cover do que eu era (risos). Mas me vejo muito bem, obrigado, e agradecido por participar disso tudo. Na verdade, quando você fala desse contexto da música cearense, eu lembro dos amigos, lembro de acolhimento. Tenho grandes amigos nesse cenário. Tivemos oportunidade de tocar todos juntos; tocamos até pro governador – na época era o Tasso Jereissati – no Centro de Convenções. Eu, doidão, tocando pro governador (risos). Amigos contemporâneos, tem o Marcelo da Renegados, grande amigo, bebe um whisky do bom. Tenho a falar tudo de bom deles. Até porque se eu falar mal, depois os caras vem cobrar (risos). Mas eu amo todos eles. Agora, porra… me paguem aquelas granas que eu fiquei devendo a vocês (risos). E desculpem meus bonecos e exageros, eu amo todos vocês.
Leo Santana: E no começo de trajetória, você se inspirou em quem? Aquela velha pergunta das referências musicais.
Paulo Rossglow: O Raul Seixas foi um cara! Na primeira vez que eu vi o show dele, eu decidi: é isso que eu quero fazer. Isso na época de 73; eu era menino, criança. Mas eu não sei se eram referências, não. Acho que era algo melhor do que referências. Referência pra mim é algo mais seco, proposital. Na verdade, eram caras que eu olhava e pensava: são colegas! Pra mim, é um prazer ser colega do Raul Seixas. Eu tenho um irmão mais velho chamado Dantas, que é 10 anos mais velho do que eu e pegou aquela coisa dos hippies. Nos morávamos em Juazeiro e ele veio antes pra Fortaleza, pra estudar. O ano era 68: estudantes na rua, aquela putaria toda; chegou aqui e encontrou logo o exército na rua. Voltou 6 meses depois pra Juazeiro. Mamãe olhou pra ele e perguntou: meu filho, em Fortaleza não tem tesoura e nem pente? (risos). Cara tava estilo Jimi Hendrix. Meu irmão Dantas foi o primeiro hippie de Juazeiro do Norte, temos muito orgulho disso. Mas, de música, gosto de muita coisa… O bom e velho Bob Dylan… Porra, muita coisa mesmo. Gosto muito do João Ricardo, o cara que fez o Secos e Molhados. Tem o João Apolinário, que é um grande poeta. Inclusive, eu cantei uma música dele em um CD que era um projeto chamado “No Ceará é Assim”; talvez esteja na Internet, é um CD gravado por grandes intérpretes da MPC (musica popular cearense).
Leo Santana: É verdade que, em Juazeiro, você saía atrás dos grupos de cabaçal ?
Paulo Rossglow: Não, eu saía atrás dos cabaços (risos). Mas eu vim pra cá com 10 anos. Desde criança, tive essa coisa de andar com pessoas mais velhas. Quando eu tinha 13 anos, meus amigos tinham 17, 18; quando eu tinha 17 ou 18, meus amigos tinham 30. Hoje, meus amigos tem 90 (risos). Mas essa coisa do regional é bem legal. É muito importante prezar o regionalismo, as raízes.
Leo Santana: Hoje em dia, tá curtindo que som?
Paulo Rossglow: Porra nenhuma. Não estou sabendo de nada. Não tenho visto nada, nem assistido a shows. Estou compondo bastante e ouvido minhas composições. Se quiserem aparecer lá em casa para uma Jam Session, as portas estão abertas.
Leo Santana: Você tem muito material guardado, músicas que não foram gravadas?
Paulo Rossglow: Sem falar no que eu já perdi. Já perdi umas 500 músicas.
Leo Santana: E o processo de criação continua fluindo?
Paulo Rossglow: Mais do que cantar, o grande barato da música pra mim é quando estou compondo ela. A viajem de você estar construindo aquilo. Gosto de escrever um pouco embriagado, semi-embriagado; é uma delicia. E eu não faço letras, faço poesias cantadas. Modéstia à parte, você pode pegar qualquer letra minha e ler em saraus, botequins; ninguém vai suspeitar que é música. Mas tem épocas em que eu não consigo criar e que eu passo só curtindo mesmo, pra descansar a mente. Tem épocas de plantar e de colher, senão fica igual ao Chico Buarque, que depois de um tempo não conseguiu mais criar nada que preste.
Leo Santana: Gosta do Chico Buarque?
Paulo Rossglow: Sim! Nos anos 70, ele era o máximo, era o bichão.
Leo Santana: Você chegou a cursar a faculdade de Letras.
Paulo Rossglow: Comecei e foi legal pra caramba. Me dei bem pra caramba. Como eu tinha perdido alguns anos de colégio, cheguei mais velho que a turma. E você sabe que as garotinhas gostam de caras mais velhos (risos).

Leo Santana: As músicas do Trem Do Futuro são inspiradas – também – na literatura do Gabriel Garcia Márquez?
Paulo Rossglow: Sim! Inclusive, eu tenho um projeto que ainda hei de realizar, que é musicar o Cem Anos de Solidão. Quando eu tô lendo alguém, automaticamente vai nascendo uma homenagem praquele poeta. Atualmente, estou musicando alguns poemas do Pablo Neruda. Tem um dele que eu estou musicando e que é assim: “lavrei na face…” espera, deixa eu tomar um gole… outro gole… e mais uns oito goles (risos).
Leo Santana: Você já foi punk?
Paulo Rossglow: Nunca fui punk. Eu adoto filosofias. Passam os movimentos, as pessoas envelhecem, as políticas mudam, mas a filosofia fica. Delas, você pode tirar algumas coisas para sua vida. Uma idéia que une milhões de cabeças, de intelectos, poetas, escritores, jornalistas, leitores, ouvintes, alguma coisa de sábia tem. Eu gosto muito dessa coisa do Flower Power, do Beleza Pura, essa coisa do revolver atirar uma flor, acho muito legal. Tenho uma tatuagem que é o símbolo da paz e esse símbolo nada menos é do que a pata de uma pomba.
Leo Santana: Conta a lenda de que você veio de outra dimensão.
Paulo Rossglow: Não fui eu que vim de outra dimensão e sim essa cruz que eu carrego, que ao mesmo tempo é uma dádiva divina que é a arte. Minha arte, com certeza, é de outra dimensão. E na arte, tão importante quanto quem a faz, é para quem ela é feita.
Leo Santana: Você se considera louco?
Paulo Rossglow: A loucura da arte eu a tenho. Nós, que escrevemos, somos críticos e, portanto, somos extremamente analíticos. Então, o mundo, pra mim, é uma pesquisa; as pessoas são personagens e as situações são cenários. Mas loucura de verdade, pra mim, é como antigamente, que tinha os loucos do bairro. Quem é mais velho pegou os loucos do bairro. Eram loucos que não eram pessoas agressivas e que o bairro adotava. Tinha um que só andava de paletó, outro que pensava que era Raul Seixas. Enfim, os loucos do bairro eram ótimos.
Leo Santana: E os seres imaginários?
Paulo Rossglow: Você tinha falado de Gabriel Garcia Márquez… Agora pulemos para Jorge Luis Borges. Ele tem um livro chamado A Terra Dos Seres Imaginários – que eu recomendo – em qual cada face de uma página é a história de um ser imaginário de diferentes épocas, dos grandes aos pequenos. Dentre essas, tem a história de um ser chamado Sila, da qual eu fiz uma música que consta no primeiro CD doTrem. É a historia de uma ninfa; se você gosta de uma ninfeta é porque nunca viu uma ninfa (risos). Pois bem, é a historia de uma ninfa muito bonita que morava ali na região da Sicília, na Itália, onde tem um Estreito que liga um mar a outro mar, com paredes enormes, que quando as ondas batem parece o som de monstros chorando. E nessa história tinha o Deus Glauco, que se apaixonou por Sila. Como não era permitido aos Deuses se apaixonarem – pois eles não tinham esse privilégio -, Glauco pirou e chamou uma tal de Sirce, que era uma feiticeira (que aparece em vários contos), relatando para ela que não conseguia esquecer a ninfa. Então, Sirce entrou no corpo de Glauco pra tentar dominar aquela paixão, mas não conseguiu dominar aquele amor de tão imenso que era. A feiticeira disse que o único jeito era transformar Sila num animal horrendo, pra Glauco perder o tesão por ela. Ele descrevia da seguinte maneira o ser: eram três corpos de cachorros enormes, ligados pelo pescoço, com fileiras de dentes horrendas. Sila quando se viu transformada naquele monstro, pulou do estreito até o mar. Até hoje, o eco lá parece com vozes e choros de lamento. Diz a lenda que é o choro de Sila. Então, dessa história eu fiz a letra da música Sila, que tá no primeiro CD da gente. E quem for visitar a Itália, não pode deixar de passar nesse estreito; é um ponto turístico lá.
Leo Santana: É verdade que a música ‘Trem Do Futuro’ antecedeu a própria banda?
Paulo Rossglow: Quero dizer como foi que surgiu essa historia. Em 1980, eu sofri um acidente de moto. Estudava violino nessa época e tava indo pro conservatório. No acidente, dilacerei minha coxa esquerda, estraçalhei minha bacia; era eu todo quebrado no chão e gritando: O violino, cadê o violino?(risos). Passei um ano deitado, escutei muito som legal, escrevi muitas coisas vendo meus amigos fumarem bagulho sem eu poder me levantar e ir até lá. Pois bem… no hospital, escrevi um conto chamado cinema do futuro. Esse conto era o seguinte: de repente, a gravidade desaparecia por completo e a terra ficava igual à lua, sem gravidade. Era uma ficção cientifica. Não queria achar lógica nisso, não há lógica. Pois bem, as pessoas saíam voando por aí a fora, mas algumas conseguiam proteger-se nos telhados; passavam a habitar os telhados. Quem tava andando no meio da rua ia embora. Vacas, carros, móveis; tudo que tivesse exposto saía voando num turbilhão de coisas, uma espécie de comboio em direção ao espaço. Dessa imagem eu tirei o trem: pessoas, pedaços de casas, animais, tudo que estivesse solto, subindo pro espaço, um atrás do outro, no formato de um trem; é o Trem Do Futuro.
Leo Santana: E as drogas, como você analisa-as hoje em dia?
PR: Não quero falar desse assunto. Até porque, quando eu usei drogas, era um mundo diferente, era um Brasil diferente. As drogas que eram oferecidas eram diferentes das de hoje. Não havia o crack. Não havia os ladrões viciados em crack. Não havia essas crianças de 12, 13, 14 anos, viciadas em crack. Crianças sem valores, sem personalidade, sem caráter nenhum, o que gera um ambiente fácil pra matar, sem saber sequer quem tá morrendo. Isso é foda, cara. São garotos que precisam de lucidez para que estudem, passem de ano, adquiram uma formação, uma personalidade. Mas no auge dos meus 40 e tantos anos, só ainda não comi bosta.
Leo Santana: Essa historia do show em Sobral… dizem que você aprontou pesado?
Paulo Rossglow: Já inventaram muitas histórias sobre esse assunto. Mas a verdade é a seguinte: estávamos em Sobral. Puta hotel, eu ali deitado, esperando a hora do show. Descobri então que naquele telefone ali do lado da minha cama aparecia uma voz perguntando: deseja alguma coisa? (risos); ai eu perguntei: tem cerveja em lata? – Por que eu sabia que, pelo contrato, poderia pedir qualquer coisa e no momento eu estava com sede. Enfim, a voz respondeu: sim, são quantas? O cara me perguntou quantas! (risos)… O problema foi esse, o cara me perguntou quantas! Olha, se você trabalha em hotel, não pergunte quantas se o hóspede em questão se chama Paulo Rossglow. Aí eu disse: várias… Traga três pra começar. Na verdade, a história começou porque deixaram um quarto só pra mim! Imagina só! Deixar o Rossglow com um quarto só pra ele (risos). Olha a loucura que fizeram, deixaram um quarto só pra mim. E todo mundo sabe que Paulo Rossglow sozinho tem mil idéias diabólicas a respeito de si mesmo, tipo, o que fazer para ficar mais legal (risos). Eles sempre colocam fiscais atrás de mim antes dos shows; dessa vez eles fizeram essa loucura. Deu no que deu.
Leo Santana: E no que foi que deu ?
Paulo Rossglow: Puro preconceito, puro preconceito… Eu não lembro, mas tem uma facção aí que diz que eu corri pelado no hotel (risos) e deu uma confusão danada. Mas tem histórias que inventam de mim muito engraçadas; tem uma que diz que eu tava numa lombra muito pesada e entrei ali na BR pensando que eu era uma moto e fui de Fortaleza à Messejana no meio da pista, como se tivesse segurando o guidão da moto e fazendo “brummmmm”. Fui e voltei nessa lombra (risos). Inventaram essa historia de mim, cara…
Leo Santana: Mas foi verdade?
Paulo Rossglow: Putaquipariu, rapaz, olha, era uma coisa que até que poderia ter acontecido, mas se tivesse, o Paulim já ta num estado tão assim, que a moto teria batido o motor na metade do caminho, perto do viaduto ali da Aerolandia (risos).
Leo Santana: O Bivar (protagonista de um clássico do Trem Do Futuro), de que dimensão veio?
PR: Quero falar do Bivar. Eu estudava no colégio Carlos De Carvalho. Passava as aulas todas desenhando. Não sabia porra nenhuma de matemática, biologia, química, mas sempre fui muito bom em português, inglês, história e redação. Nessas provas, sempre dava um jeito e fazia a dos meus colegas também. Sempre fui muito bem em redação, foi o que fez eu passar no vestibular pra Letras… Sim, mas não tou entendendo o que isso tem a ver com alguma coisa que você tenha me perguntado…
Leo Santana: O Bivar…
Paulo Rossglow: Ah, sim! Aí eu voltava pra casa e, no caminho, sempre tomava umas duas doses de cana. E, no final da tarde, que é a melhor hora para aguar as plantas, tinha um coroa vizinho meu com uma âncora tatuada no braço – aquela tatuagem típica da marinha – que sempre dava um banho nos netinhos dele com a mangueira. Esse coroa já devia ter uns 500 anos. Sempre nesse horário, eu ficava encostado num fusquinha em frente à casa dele, porque era ótimo escrever em cima do fusquinha… Porque era baixo e tal. Daí olhava pro coroa, escrevia alguma coisa, disfarçava, depois escrevia mais um pouquinho. E daí surgiu o Bivar. Só é uma pena porque eu queria ter mostrado pra ele essa música, mas talvez ele já tenha morrido. Já tinha seus 500 anos na época.
Leo Santana: Não posso deixar de perguntar como surgiu a música Búfalos Audazes, uma das minhas preferidas.
Paulo Rossglow: Essa música é irmã da música Soníferos Falham; vieram da mesma época. Nessa época, a comédia ainda rolava na Praia de Iracema e foi na mesma época que eu e minha mulher ficamos grávidos… Eu engravidei junto com ela. Então, por conta disso, tivemos que ficar uns tempos sem usar nada. Quem é muito doido, experimente fazer isso: saia com seus amigos e não use nada, não beba, fique apenas prestando atenção na evolução da embriaguez deles; é uma experiência muito interessante. Foi disso aí que eu olhei e, porra… São Búfalos Audazes!
Leo Santana: Qual a mensagem que você quer deixar pros fãs dessa e de outras gerações?
Paulo Rossglow: Sigam mesmo em zigue-zague.
São Búfalos Audazes!
Grande Paulo Rossglow, Um dos gênios do prog brasileiro!